terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Amanhecer Esmeralda

Já imaginou poder comprar uma revista em quadrinhos com uma história completa que não continue na próxima edição, ou que não faça referência a 30 outras revistas diferentes? Para leitores de quadrinhos mais infantis, como os da Turma da Mônica (original) e da Disney, essa é uma realidade quase frequente. Mas para os leitores de quadrinhos de super-heróis é um sonho distante. 

"Uma história com começo, meio e fim em uma única revista?"
Entretanto houve um tempo em que as histórias de super-heróis tinham roteiros tão descompromissados quanto os quadrinhos infantis de hoje. Era o tempo em que os editores ainda não tinham grandes preocupações com a continuidade e a cronologia dos personagens. Era o tempo em que ainda os editores ainda não haviam visto a oportunidade de obrigar os fãs a comprarem dezenas de revistas para acompanhar uma história.

Os super-heróis da DC Comics, conhecidos entre os setentistas e oitentistas como Superamigos, e pelos mais novos como Liga da Justiça, viveram um momento em que os roteiristas não precisavam de uma enciclopédia com referências cruzadas e vários álbuns para poder escrever uma história. Eles podiam ignorar fatos passados ou simplesmente incluí-los, contradizendo o que já havia sido escrito antes.

Guerra Civil: contradição de caráter

Foi assim que o Superman, que no início só torna-se herói adulto, logo depois passa a ter uma adolescência como Superboy. E logo o último sobrevivente de Krypton passa a não ser mais tão último assim, encontrando prima, cachorro, gato, cavalo e até inimigos vindos de seu planeta.


Os super-animais de estimação

 Nos anos 40 vários personagens foram criados, muitos tendo a magia como fonte de poder, como o Lanterna Verde original, Alan Scott, o Senhor Destino e o Gavião Negro original.  Nos anos 60, vários heróis foram reformulados, para terem uma origem mais científica. Assim surgiram o segundo e mais conhecido Flash, Barry Allen, o Lanterna Verde Hal Jordan, e o Gavião Negro alienígena Katar Hol.

Os Flashes da Era de Prata e de Ouro
 
Os Lanternas Verdes da Era de Prata e de Ouro


Só que havia um problema. Superman,  Batman e Mulher-Maravilha haviam lutado com os heróis dos anos 40, a Sociedade da Justiça. E agora, eles lutam com os heróis dos anos 60, a Liga da Justiça. E em vinte anos, continuavam enxutos. Como explicar isso? Aliás, como explicar que, aparentemente, a trindade da DC Comics parecia não se lembrar de ter lutado com a Sociedade da Justiça?    Em uma história do Flash Barry Allen chamada Flash of Two Worlds, publicada na revista Flash #123 de 1961, o Flash dos anos 60 se encontra com o Flash dos anos 40. Voltando no tempo? Não, porque o Flash dos anos 40 nunca existiu na história do Flash dos anos 60. Então como? O que ocorre é que ambos descobrem que existem terras paralelas. Ou seja, em uma Terra há um Flash, e ela está na década de 40, enquanto em sua cópia há um outro, só que ela está vive a década de 60. 


Superman e Superboy

Confuso? Isso piorou com o tempo. Pra tentar explicar as incoerências geradas pela falta de continuidade nas histórias foram sendo criadas várias terras paralelas: Terra 3, Terra X, Terra S, Terra Prime e milhares outras. A Terra da Liga da Justiça era a 1, enquanto a Terra da Sociedade da Justiça era a 2. De vez em quando os heróis de Terras diferentes se encontravam. Às vezes ocorriam coisas curiosas, como a morte do Batman da Terra 2 (que teve uma filha com a Mulher Gato) enquanto sua contraparte na Terra 1 permanecia viva.    Bem, um dia a DC resolveu arrumar a bagunça e tentar estabelecer uma única Terra, com uma única cronologia. Mas não dava pra simplesmente começar do zero sem dar uma satisfação para os leitores. Então surgiu uma das maiores sagas dos quadrinhos nos anos 80: a Crise nas Infinitas Terras. Essa foi uma história magistral, publicada originalmente em doze edições, que reuniu todos (TODOS) os personagens da DC Comics em um confronto com o Antimonitor, uma criatura de anti-matéria que queria destruir o multiverso (o universo com as múltiplas Terras).   

Os personagens de Crise nas Infinitas Terras, por Alex Ross
 
No final da saga, as Terras (que sobreviveram) são fundidas em uma única Terra. Alguns heróis e vilões morrem, para solucionar as incoerências, como o Robin e a Caçadora da Terra 2 e a Supermoça. Infelizmente, alguns que não precisavam morrer por causa disso também sucumbem, como o Flash.    A partir do final da Crise, toda a cronologia do universo DC foi unificada, tanto que os autores da saga, Marv Wolfman e George Pérez, escreveram "A História do Universo DC", para servir de referência para os artistas e leitores. A partir daí, os principais personagens da DC Comics tiveram suas origens recontadas. Um desses foi o Lanterna Verde da Era de Prata (anos 60). E tudo o que foi falado até agora foi apenas uma introdução para a história dos anos 80 que reconta a origem do personagem criado na década de 60.

A história do universo DC
O nome dessa história é Emerald Dawn, traduzida aqui como Amanhecer Esmeralda. O que ela tem de importante hoje? Bem, parte dela serviu para o infame primeiro filme solo do Lanterna Verde. E olha que o personagem já apareceu em péssimas produções cinematográficas antes, mas sempre como parte de uma equipe. 

Os fãs do Lanterna Verde esperaram pela chance de assistir a uma produção que honrasse toda a mitologia da Tropa dos Lanternas Verdes, conceito criado por John Broome e Gil Kane, logo na primeira história em quadrinhos de Hal Jordan, o Lanterna que foi interpretado por Ryan Reynolds que mais tarde ironizou sua atuação no filme solo de Deadpool.

O primeiro filme solo do Lanterna Verde
A Tropa dos Lanternas Verdes tem uma grande importância na Crise das Infinitas Terras. Na verdade, a origem da crise se dá no planeta Oa, que é o lar dos Guardiões do Universo, os criadores da Tropa. 

Os milhares de membros da Tropa dos Lanternas Verdes, exceto Mogo, um vírus e uma equação
 
Eu resolvi reescrever este artigo, criado originalmente em meu site (www.fgsl.eti.br) após assistir ao primeiro trailer do filme Lanterna Verde, que infelizmente não foi o filme que o gladiador esmeralda merecia. Mas percebi que diversas frases foram retiradas da história Amanhecer Esmeralda. Eu pessoalmente gosto muito dessa história. É bem escrita (ao contrário do filme) e bem desenhada, e ainda não tem aquela sanguinolência dos quadrinhos pós-Watchmen e Cavaleiro das Trevas. É algumas vezes poética e até inspiradora.    

Em uma das cenas do filme, Hal Jordan diz que um Lanterna Verde não pode ter medo, mas ele não é assim. Em Amanhecer Esmeralda, quando Abin Sur encontra Hal e lhe diz que ele foi escolhido para ser seu sucessor, ele responde: 

 "Você disse que um Lanterna Verde tem de ser corajoso e eu estou me borrando nas calças".    

Abin Sur responde:    

"Se o anel o escolheu, é porque você tem o potencial para superar o medo".    

Abin Sur e Hal Jordan
No infame filme, é Carol Ferris, o amor de Hal, quem lhe diz:

"Você tem a habilidade de superar o medo".  

Blake Lively como Carol Ferris

O encontro entre Hal e Abin Sur ocorre, guardadas as adaptações, de maneira bastante similar a origem recontada em 1986, embora de forma bem sucinta (e pouco épica). Aliás, no filme aparece o planeta Oa e os outros Lanternas que Hal conhece na história, que serão os mais influentes em sua carreira de super-herói: Tomar Re, Killowog e Sinestro. 

O Hal Jordan vivido por Reynolds é um sujeito pouco responsável, que de repente se vê com uma enorme responsabilidade nas mãos. 

Em Amanhecer Esmeralda, Hal é retratado como um cara que carrega uma dor pela morte do pai (que também era piloto) e vive uma fase de seguidos fracassos. A cena fo filme em que ele ejeta do caça após uma pane me deixou com a suspeita de que tentaram fazer referência ao roteiro de Amanhecer Esmeralda, mas infelizmente, descartaram essa explicação.

Eu sempre quis que Amanhecer Esmeralda virasse filme, pois é uma história fantástica, realmente poderia ser a origem definitiva (mas contaram ela de novo pra consertar a besteira de terem matado Hal Jordan). Seria fantástico assistir a um filme baseado nessa saga. Aliás, eu não entendo porque Warner Bros complica tanto suas produções, enquanto a Marvel Studios apenas segue os roteiros dos quadrinhos adaptando o que é necessário mas mantendo a essência dos personagens e a trama principal das sagas.


Amanhecer Esmeralda - versão brasileira

Uma nova produção com a Tropa dos Lanternas Verdes já foi anunciada. Quem sabe eu ainda ouça a frase de Hal, quando entrou na bateria central pela primeira vez:    "Eu anda tenho medo? Sim. Mas o medo não importa mais". 

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